Revogar procuração não basta querer — é preciso formalizar (escritura ou declaração), notificar o procurador e comunicar Detran, RGI e bancos. Sem essas etapas, atos praticados em boa-fé continuam valendo.
Revogar procuração é um ato simples na teoria — o Art. 682, I, do Código Civil diz que o mandato se extingue pela revogação. Na prática, porém, revogar mal é tão perigoso quanto não revogar. Procuração revogada por mensagem de WhatsApp não vale juridicamente. Procuração pública revogada em particular continua aparecendo nos cartórios como vigente.
Este guia mostra o passo a passo correto da revogação, separado por destinatário: Detran, Cartório de Imóveis, banco e procurador.
A regra básica: a forma da revogação acompanha a forma da procuração
O princípio é simples e decorre do paralelismo das formas (Art. 657 CC). Se a procuração foi pública, a revogação tem que ser pública. Se foi particular, a revogação pode ser por declaração particular escrita.
| Procuração original | Forma da revogação | Custo aproximado |
|---|---|---|
| Pública (escritura) | Escritura pública de revogação no mesmo cartório | R$ 150 a R$ 400 |
| Particular com firma | Declaração escrita com firma reconhecida | R$ 10 a R$ 30 |
| Particular sem firma | Declaração escrita (recomenda-se firma) | R$ 0 a R$ 30 |
| Por instrumento eletrônico (e-Notariado) | Revogação eletrônica no e-Notariado | R$ 50 a R$ 200 |
Atenção: revogar procuração pública por documento particular não tem eficácia perante terceiros. O cartório onde a procuração foi lavrada continua emitindo certidão de vigência. O ideal é sempre lavrar nova escritura pública de revogação no mesmo cartório.
Passo 1 — Lavrar a revogação formalmente
Procuração pública: escritura pública de revogação
Vá ao cartório onde a procuração foi lavrada (ou a qualquer cartório se a procuração foi eletrônica). Apresente RG e CPF. Solicite escritura pública de revogação de procuração. Indique o número da procuração que será revogada, sua data e o nome do procurador. O tabelião lavra a escritura, você assina, e a procuração original é averbada como revogada. Custo médio: R$ 150 a R$ 400.
Procuração particular: declaração escrita
Escreva declaração simples com os seguintes elementos: nome e qualificação do outorgante, identificação da procuração revogada (data, poderes, procurador), declaração expressa de revogação total, data e assinatura. Recomenda-se reconhecer firma para dar mais força ao documento. Veja modelo abaixo.
Passo 2 — Notificar o procurador (Art. 686 CC)
Lavrar a revogação não basta. O Art. 686 do Código Civil é explícito: a revogação do mandato, notificada somente ao mandatário, não se pode opor aos terceiros que, ignorando-a, de boa-fé com ele trataram. Em síntese: enquanto o procurador continuar agindo sem saber da revogação, e terceiros aceitarem essa atuação de boa-fé, os atos vinculam o mandante.
Como notificar formalmente:
- Carta com aviso de recebimento (AR) endereçada ao procurador, contendo cópia da revogação. Guardar o comprovante de AR.
- Notificação extrajudicial via Cartório de Títulos e Documentos (RTD). Custo médio: R$ 80 a R$ 250. O cartório registra a entrega.
- Notificação eletrônica com confirmação de recebimento (e-mail com leitura confirmada não é prova robusta — prefira AR ou RTD).
- Entrega pessoal com recibo assinado pelo procurador, datada.
Baixe um modelo de procuração para reescrever ou substituir
Se você está revogando para substituir o procurador, use nosso modelo de procuração particular para emitir nova outorga.
Passo 3 — Comunicar os destinatários da procuração
Cada órgão ou empresa que recebeu a procuração precisa ser comunicado da revogação. Sem essa comunicação, o procurador continua aparecendo nos sistemas como representante autorizado.
Detran (transferência de veículos)
Se você outorgou procuração para venda ou transferência de veículo, a revogação precisa ser cadastrada no Detran do estado. Roteiro: (a) protocolar a revogação no posto Detran ou na delegacia de trânsito; (b) apresentar a revogação original ou cópia autenticada; (c) o sistema registra a revogação dos poderes; (d) o procurador deixa de poder transferir o veículo em seu nome.
Atenção: se o procurador já transferiu o veículo a terceiro antes da revogação, o ato é válido. Você não recupera o carro automaticamente. Cabe ação judicial específica.
Cartório de Registro de Imóveis (RGI)
Se houver procuração arquivada para uso em compra, venda ou averbação de imóvel, o procurador deve apresentar pedido de averbação da revogação. Custo: R$ 50 a R$ 150 por matrícula. A partir da averbação, o cartório recusa qualquer pedido apresentado pelo antigo procurador. Esse passo é especialmente importante quando a procuração foi entregue para registro junto a um cartório específico.
Bancos
Comparecer pessoalmente à agência, apresentar a revogação (original ou cópia autenticada) e exigir protocolo escrito da comunicação. O banco bloqueia os poderes do procurador na hora ou em até 24 horas, dependendo do tamanho da instituição. Conferir extratos nos próximos 30 dias para confirmar que não houve movimentação posterior.
INSS, Receita Federal e órgãos públicos
Comunicação por escrito no protocolo do órgão, apresentando a revogação. Em muitos casos, é preciso o próprio outorgante comparecer (no caso da Receita Federal, basta acessar o e-CAC e cancelar a procuração eletrônica).
| Destinatário | Como comunicar | Prazo de efeito |
|---|---|---|
| Procurador | Carta com AR ou RTD | Da ciência (recebimento) |
| Detran | Protocolo no posto | 1 a 3 dias úteis |
| Cartório de Imóveis | Averbação na matrícula | Imediato após averbação |
| Banco | Comunicação presencial na agência | Imediato até 24h |
| INSS | Protocolo na agência | 1 a 5 dias úteis |
| Receita Federal (e-CAC) | Cancelamento online | Imediato |
Atos praticados antes da revogação: regra da boa-fé
O Art. 686 do Código Civil estabelece a proteção dos terceiros de boa-fé. Em linguagem prática: tudo que o procurador fez dentro dos poderes da procuração, antes de a outra parte saber da revogação, permanece válido. Você fica vinculado a esses atos.
Exemplo: outorgante revoga a procuração no dia 10. Procurador, sem saber da revogação, assina contrato com terceiro no dia 12. Se o terceiro estava de boa-fé (não tinha como saber da revogação), o contrato vincula o outorgante. O outorgante pode buscar reparação contra o procurador, mas não pode anular o contrato perante o terceiro.
Por isso a notificação ao procurador é tão estratégica: ela registra o momento em que o procurador deixou de ter boa-fé, e a partir daí os atos podem ser revisados.
Extinção automática por morte (Art. 682, II CC)
Não precisa revogar quando o outorgante ou o procurador morrem: a procuração se extingue automaticamente. O Art. 682, II, do CC é taxativo. Mas a extinção automática não dispensa comunicação aos destinatários, que muitas vezes não sabem do óbito.
Quando o outorgante morre, o procurador deixa de poder agir. Quem assume o patrimônio é o inventariante (em inventário aberto) ou o administrador provisório (até a abertura do inventário). Bancos congelam contas, cartórios suspendem transações. Atos praticados pelo procurador após a morte e antes da ciência são, em regra, válidos perante terceiros de boa-fé (mesma regra do Art. 686 CC).
Modelo de procuração para inventário e partilha
Após o óbito do outorgante, a representação se transfere ao inventariante. Veja modelo de procuração para constituir representante no inventário.
Procuração com cláusula em causa própria (Art. 685): não pode ser revogada
Se a procuração contém cláusula in rem suam (em causa própria) e atende aos requisitos legais — interesse do procurador, contrapartida econômica — ela é irrevogável pelo Art. 685 do CC. Mesmo a morte do outorgante não extingue. É figura usada na prática para garantir compradores em transações imobiliárias enquanto a escritura não é lavrada.
Tentativa de revogar procuração em causa própria por escritura pública será recusada pelo cartório, ou, se lavrada, não terá efeito perante o procurador. Discussões sobre a validade da cláusula vão para o Judiciário.
Riscos concretos de não revogar quando deveria
- Procurador continua sacando da conta bancária após a relação ter acabado — fraude difícil de provar.
- Procurador transfere o veículo no Detran sem o seu conhecimento, e o comprador é de boa-fé.
- Procurador vende imóvel (se procuração pública vigente) e o comprador registra sem barreira.
- Procurador acessa órgãos públicos, retira documentos, faz declarações em seu nome.
- Procurador substabelece a terceiro, e a cadeia de poderes se espalha sem seu controle.
- Em caso de falecimento, atos posteriores ao óbito praticados em boa-fé pelo procurador vinculam o espólio.
Quadro geral para entender a procuração
Este guia foca na revogação. Para entender os tipos de procuração, custos de cartório, prazos, poderes especiais (Art. 661 §1º CC) e a regra do Art. 108 (escritura pública para imóveis), consulte nosso guia completo de procuração.
Perguntas frequentes
Não. Mensagem informal não tem força jurídica para revogar. Procuração pública exige escritura pública de revogação (R$ 150 a R$ 400). Procuração particular exige declaração escrita, preferencialmente com firma reconhecida (R$ 10 a R$ 30). Comunicação informal pode complementar, mas não substitui o ato formal.
Sim, em regra. O Art. 686 do CC protege terceiros de boa-fé: enquanto o procurador agia sem saber da revogação e o terceiro confiava na procuração, o ato vincula o outorgante. Por isso a notificação ao procurador é essencial — ela marca o fim da boa-fé.
Entre R$ 150 e R$ 400 em 2026, dependendo do estado. A escritura de revogação é lavrada no mesmo cartório onde foi feita a procuração original. Algumas tabelas estaduais cobram emolumentos proporcionais ao valor declarado da procuração revogada.
Sim. Protocole a revogação no posto Detran do estado. Sem essa comunicação, o procurador continua aparecendo no sistema como autorizado a transferir o veículo. Se ele transferir antes de você protocolar a revogação, o ato é válido perante o comprador de boa-fé.
Sim, pelo Art. 682, II do CC. A procuração se extingue no momento do óbito, independentemente de revogação. Mas atos praticados pelo procurador após a morte e antes da ciência são, em regra, válidos perante terceiros de boa-fé. Bancos, cartórios e Detran devem ser comunicados do óbito.
Pela prova documental: aviso de recebimento da carta (AR), certidão de entrega do cartório de Títulos e Documentos (RTD), ou recibo assinado pelo procurador. Sem prova de ciência, fica difícil provar que ele agiu de má-fé em atos posteriores. RTD é o método mais seguro: R$ 80 a R$ 250.
Em regra, não. O Art. 685 do CC torna irrevogável a procuração in rem suam, dada em interesse do próprio procurador. Tentativa de revogação é ineficaz e o procurador continua com poderes. Discussão sobre validade da cláusula precisa ser levada ao Judiciário.